domingo, 13 de setembro de 2026

O Paradoxo do Lumpemproletariado: O Que Marx Realmente Pensava Sobre os Moradores de Rua

Por Bruno Vértice 


No Manifesto Comunista (1848), Marx e Engels descrevem o lumpemproletariado como "a escória passivamente apodrecida das camadas mais baixas da velha sociedade", acrescentando que ele pode, "aqui e ali, ser arrastado ao movimento por uma revolução proletária", mas que, "por toda a sua condição de vida, está muito mais preparado para se vender à intriga reacionária". Não é uma descrição gentil. E não é um deslize isolado: quatro anos depois, n'O Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte, Marx dedica páginas a detalhar quem exatamente compunha essa camada e por que ela apoiou o golpe de Luís Napoleão em 1851 — mendigos, vadios, ladrões liberados de prisão, jogadores, "vendedores ambulantes de bugigangas", "escritores de romances baratos" — uma lista quase caricatural, montada para mostrar como Bonaparte formou sua base de poder recrutando essa massa desorganizada e pagando-a com cargos e subsídios, em vez de depender de qualquer classe com projeto histórico próprio.

O argumento de Marx não é moral, é estrutural: para ele, o lumpemproletariado não tem posição estável na produção capitalista — não vende força de trabalho de forma regular, não tem interesse de classe organizável — e por isso é politicamente maleável, disponível para quem pagar mais. Numa sociedade em que o proletariado industrial ainda estava se formando como classe consciente de si mesma, essa camada era, aos olhos de Marx, um obstáculo em potencial: massa de manobra de projetos reacionários, não sujeito de transformação revolucionária.


A tensão com a esquerda de hoje

É aqui que a controvérsia ganha corpo. Parte da esquerda brasileira contemporânea — em municípios governados por partidos de esquerda, em propostas de vereadores e deputados — defende políticas de inclusão para pessoas em situação de rua: passe livre em transporte público, programas de renda, prioridade em cadastros habitacionais. A lógica por trás dessas pautas costuma ser explicitamente marxista na retórica (falar em "classe trabalhadora", "exclusão do capital", "exército industrial de reserva"), mas o próprio Marx, no texto que fundou boa parte do vocabulário que essa retórica usa, tratava esse grupo especificamente como o oposto do sujeito revolucionário — uma "massa perigosa", não uma classe a organizar.

Dá pra ler essa aparente contradição de pelo menos três formas, e vale a pena passar pelas três antes de tirar conclusão.

A primeira é a leitura mais favorável à crítica: a de que a esquerda contemporânea abandonou a análise de classe estrutural do marxismo clássico em troca de um humanismo distributivo genérico — ainda usa o vocabulário marxista, mas na prática pratica uma política de assistência social liberal, sem nenhuma pretensão real de organizar essa camada como sujeito de luta de classes. Sob essa ótica, chamar isso de "marxismo" seria, na melhor das hipóteses, imprecisão terminológica; na pior, uma tentativa de dar verniz teórico a uma pauta que Marx teria rejeitado.

A segunda leitura, mais favorável à esquerda atual, aponta que a categoria de "lumpemproletariado" foi cunhada para descrever uma conjuntura muito específica — a Paris de 1848-1851, com sua massa de desempregados urbanos recém-chegados do campo — e que aplicá-la sem mediação à população em situação de rua do Brasil de 2026 é um anacronismo. O capitalismo contemporâneo, o argumento vai, produz uma massa de excluídos em escala muito maior e mais estrutural do que a de meados do século XIX; tratá-la simplesmente como "escória manipulável" ignoraria décadas de teoria social que revisaram essa categoria.

E é justamente aqui que entra a terceira leitura, a mais interessante teoricamente: a de que o próprio marxismo já revisou Marx nesse ponto. Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (1961), inverteu quase completamente o diagnóstico: para ele, em contextos coloniais, era exatamente o lumpemproletariado urbano — os deserdados sem vínculo com a produção formal — que carregava potencial revolucionário mais imediato, porque não tinha nada a perder e nenhuma posição a defender dentro da ordem colonial. Onde Marx via massa de manobra reacionária, Fanon viu vanguarda possível. Boa parte da esquerda latino-americana que hoje defende políticas para moradores de rua está, ainda que sem citar a fonte, mais próxima de Fanon do que de Marx — o que talvez seja uma resposta mais honesta à polêmica do que fingir que não houve ruptura nenhuma.

Por que isso importa além da bolha teórica

O interessante dessa discussão não é decidir quem "está certo" — Marx, os críticos ou os fanonianos de plantão — mas o que ela revela: categorias de mais de 150 anos não migram para o presente sem atrito, e usar o vocabulário de um pensador não obriga ninguém a herdar todas as suas conclusões específicas. Quem ataca a esquerda hoje citando Marx contra ela mesma está fazendo uma leitura literal de um texto de 1852 escrito sobre uma conjuntura concreta da França, não uma teoria atemporal sobre pessoas em situação de pobreza. Mas quem defende a pauta atual também ganharia em precisão se admitisse que está atualizando — ou de fato rompendo com — uma parte específica do cânone que reivindica.

No fim, a polêmica do X provavelmente vai esfriar como todas esfriam. Mas a pergunta que ela levanta — que responsabilidade tem uma tradição política com os textos fundadores que cita, quando a realidade material que esses textos descreviam já não existe mais do mesmo jeito — essa continua valendo a pena carregar para outros debates.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A Encruzilhada de Lula na ONU: Eleição, Economia, Soberania e Trump na Mesma Manhã

 Nesta terça-feira, 22 de setembro de 2026, Lula discursa às 9h (horário de Nova York, 10h em Brasília) na abertura da Assembleia Geral da O...