domingo, 13 de setembro de 2026

De Marx ao Estado de Bem-Estar: Como (e Por Que) a Esquerda Trocou Sua Teoria de Classe

 Na matéria passada, sobre o desprezo de Marx pelo lumpemproletariado e o acolhimento que parte da esquerda de hoje dá aos moradores de rua, ficou uma pergunta em aberto maior do que aquele caso específico: a esquerda mudou muito de lá pra cá? ( confira a outra matéria no blog https://analise-publica.blogspot.com/2026/09/o-paradoxo-do-lumpemproletariado-o-que.html). A resposta curta é sim, radicalmente — mas a mudança é mais interessante do que o "amoleceu" que a direita gosta de repetir, ou o "evoluiu" que parte da própria esquerda usa pra evitar encarar o que, de fato, foi abandonado pelo caminho.





Uma teoria com um eixo só

A esquerda clássica — a de Marx e Engels, e depois a Segunda e a Terceira Internacionais, até mais ou menos a metade do século XX — organizava tudo em torno de um único eixo: a posição de cada um na estrutura de produção. Quem vendia força de trabalho era proletariado; quem possuía os meios de produção era burguesia; e a história era, antes de qualquer outra coisa, o registro do conflito entre essas duas posições. O sujeito revolucionário era o proletariado industrial, a estratégia era organização sindical e partidária rumo à tomada do poder, e o vocabulário era abertamente internacionalista e materialista — inclusive hostil a identidades nacionais e religiosas, tratadas como "superestrutura" que desviava a atenção do que realmente importava. Nação, raça, gênero: para o marxismo ortodoxo, tudo isso era, na melhor das hipóteses, secundário; na pior, cortina de fumaça que a burguesia usava para dividir a classe trabalhadora contra si mesma.

Mesmo dentro dessa tradição já havia fraturas sérias — a separação entre socialdemocratas e comunistas depois da Revolução Russa de 1917 é provavelmente a mais decisiva de toda a história da esquerda, e aconteceu décadas antes de qualquer coisa que hoje se chama de "pauta identitária". De um lado, quem apostou na via eleitoral e no Estado de bem-estar social como caminho (a socialdemocracia europeia); do outro, quem manteve a aposta na ruptura revolucionária. Essa fratura, sozinha, já divide a esquerda em duas tradições que mal se falam até hoje.

Gramsci, Frankfurt e a entrada da cultura

A virada que de fato começou a mudar o vocabulário da esquerda veio com Antonio Gramsci, nos anos 1920 e 30, escrevendo da prisão fascista italiana. Ele complicou o quadro clássico ao propor que o capitalismo também se sustenta pelo consentimento cultural, não só pela força econômica — e que por isso a esquerda precisava disputar escolas, igrejas, imprensa, senso comum, não apenas fábricas e parlamentos. Foi uma virada e tanto: pela primeira vez, cultura deixava de ser mero reflexo da economia para virar campo de disputa em si mesmo.

Esse fio foi puxado adiante pela Escola de Frankfurt — Adorno, Horkheimer, mais tarde Marcuse — entre os anos 1930 e 60, trazendo psicanálise, cultura de massa e subjetividade individual para dentro da análise. Coisas que Marx tratava como periféricas viravam, pra eles, centrais para entender por que o proletariado dos países ricos não fazia a revolução que a teoria previa.

A Nova Esquerda e a explosão de pautas

Os anos 1960 e 70 são onde a ruptura fica visível a olho nu. A chamada Nova Esquerda incorpora anticolonialismo — é aqui que entra Frantz Fanon, que citei na matéria anterior, invertendo o julgamento de Marx sobre o lumpemproletariado ao ver nos deserdados urbanos das colônias um potencial revolucionário que Marx nunca lhes atribuiria —, feminismo de segunda onda, o movimento negro americano, liberação sexual e um ambientalismo ainda incipiente. Nenhuma dessas pautas deriva diretamente da posição de alguém na cadeia produtiva; todas exigiram um vocabulário que o marxismo clássico simplesmente não tinha.

Na década seguinte, a virada pós-estruturalista — Foucault primeiro, depois a teoria queer e a teoria crítica racial — empurra ainda mais a ênfase de "classe econômica" para "poder" e "discurso" como categorias centrais de análise. É esse acúmulo de camadas que os críticos, principalmente à direita, resumem com o rótulo pejorativo de "marxismo cultural" — termo, vale registrar, cunhado e usado quase exclusivamente por quem se opõe a essas ideias, não por quem as defende.

A esquerda que governa hoje

O resultado de todo esse século de acúmulos é uma esquerda muito mais plural — e, na maior parte dos casos onde de fato governa, muito mais institucional do que revolucionária. PT, PSOL, os partidos social-democratas europeus, a ala mais à esquerda do Partido Democrata americano: nenhum desses fala seriamente, na prática de governo, em expropriar meios de produção. Falam em Estado de bem-estar social, redistribuição via impostos, regulação de mercado, políticas de reconhecimento para raça, gênero e sexualidade, e, mais recentemente, pauta climática ocupando um espaço quase tão central quanto a pauta econômica já ocupou sozinha.

A luta de classes não desapareceu do vocabulário — ainda aparece em quase todo discurso de esquerda —, mas hoje divide palco, e às vezes perde espaço, para estruturas de opressão que a tradição clássica não tinha ferramenta teórica para tratar. O próprio Marx, aliás, tinha posições sobre raça e sobretudo sobre nação que a esquerda de hoje descartaria sem hesitar um segundo, se fossem ditas por qualquer outra pessoa.

O que se ganhou, o que se perdeu

É por isso que a tensão que discutimos na matéria passada — entre o desprezo de Marx pelo lumpemproletariado e o acolhimento contemporâneo aos moradores de rua — não é hipocrisia pura nem acidente de percurso: é sintoma de uma esquerda que trocou, ao longo de mais de um século, uma teoria de classe rígida e excludente por uma ética distributiva mais ampla e bem menos sistemática. Ganhou capacidade de falar com grupos que o marxismo clássico simplesmente ignorava ou tratava como obstáculo. Perdeu, no processo, a coerência teórica interna que a tradição original tinha — e é exatamente esse flanco aberto que os críticos exploram toda vez que citam Marx contra a esquerda que hoje reivindica o nome dele.

Talvez a pergunta mais honesta não seja "a esquerda traiu Marx?", mas "quanto do Marx original ainda faz sentido reivindicar, se quase ninguém à esquerda hoje concorda com o diagnóstico dele sobre quem é o sujeito da mudança?". Essa é uma pergunta que a própria esquerda parece preferir não responder em voz alta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A Encruzilhada de Lula na ONU: Eleição, Economia, Soberania e Trump na Mesma Manhã

 Nesta terça-feira, 22 de setembro de 2026, Lula discursa às 9h (horário de Nova York, 10h em Brasília) na abertura da Assembleia Geral da O...