Por Bruno Vértice
Em 3 de janeiro, forças americanas capturaram Nicolás Maduro em Caracas, numa operação batizada "Absolute Resolve" — a maior ação militar dos EUA na América Latina desde a invasão do Panamá em 1989. Maduro foi indiciado por narcoterrorismo e levado para julgamento em Nova York. Horas depois, grupos de WhatsApp e Telegram já espalhavam a mesma pergunta: Lula seria o próximo. A resposta factual é não — mas entender por quê exige mais do que afirmar isso de bate-pronto, sobretudo num momento em que a relação entre Brasília e Washington atravessa sua pior crise em anos.
O que de fato aconteceu na Venezuela
A operação não foi apresentada como guerra convencional. Foi enquadrada dentro da lógica de combate ao narcoterrorismo: construção prévia de narrativa (crime organizado, cartel, ameaça transnacional), seguida de indiciamento formal nos EUA e, por fim, ação militar para "levar à justiça" um chefe de Estado acusado de comandar rede de tráfico internacional. Maduro foi fotografado algemado a bordo de um navio da Marinha americana; Trump declarou que os EUA "administrariam" a Venezuela até uma "transição segura".
A desinformação que já foi checada
Nas horas seguintes à captura, mensagens sem qualquer prova circularam alegando que Lula teria recebido dinheiro do governo venezuelano via narcotráfico — dado como "evidência" de que seria o próximo alvo. A agência de checagem Lupa rastreou essas mensagens: alcance estimado de 8 milhões de perfis em poucas horas, disseminadas majoritariamente por contas bolsonaristas, incluindo o deputado Gustavo Gayer, sem qualquer base factual. Vale registrar com clareza: não existe indiciamento, acusação formal ou evidência de vínculo de Lula com tráfico de drogas — nem nos EUA, nem no Brasil.
Por que a resposta institucional aponta para "não"
A Revista Fórum resumiu bem o consenso analítico: "o Brasil não é a Venezuela. Tem outra dimensão econômica, outro peso diplomático, instituições mais robustas e uma inserção internacional muito diferente." Isso não é wishful thinking — é diferença estrutural mensurável: a Venezuela sob Maduro era tratada por Washington como Estado pária, isolado diplomaticamente, com economia dependente do petróleo sancionado. O Brasil é a maior economia da América Latina, parceiro comercial relevante dos EUA, membro do G20, com Forças Armadas e capacidade de resposta muito superiores a qualquer coisa que a Venezuela dispunha.
A crise diplomática real: tarifas, agrément recusado e vistos cruzados
Dito isso, seria impreciso tratar a relação Lula-Trump como mero "atrito comercial" neste momento. A escalada seguiu uma sequência concreta e crescente ao longo de 2026.
Em junho, Washington anunciou a indicação do deputado estadual da Flórida Daniel Perez — aliado próximo do secretário de Estado Marco Rubio — para embaixador dos EUA no Brasil, rompendo o protocolo diplomático padrão ao divulgar o nome publicamente antes de solicitar o agrément (aprovação prévia do país anfitrião), previsto pela Convenção de Viena. O Itamaraty reagiu mal ao gesto e passou a segurar o processo sem prazo definido — fontes brasileiras indicam que a decisão deve ficar parada até depois das eleições de outubro, nas quais Lula concorre contra Flávio Bolsonaro.
No fim de julho, o Brasil negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado — Riley Barnes, secretário-assistente para democracia, direitos humanos e trabalho, e um assessor sênior — que viriam ao país, segundo Washington, discutir "integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão". Lula foi direto ao classificar a visita como tentativa de "se intrometer nas eleições brasileiras"; o governo americano nega qualquer intenção de interferência.
Em 4 de agosto, os EUA revidaram: revogaram o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti — medida que, na prática, equivale a uma espécie de deportação branca, ainda que o Departamento de Estado insista em dizer que não se trata de expulsão formal. A Casa Branca condicionou a reversão à concessão do agrément para Perez, numa lógica explícita de reciprocidade e retaliação. Some-se a isso o pano de fundo já conhecido: a tarifa cumulativa de até 37,5% sobre parte das exportações brasileiras, que já discutimos aqui, e que reduziu a participação americana nas exportações do Brasil de 12,1% para 9,4% em um ano — impacto econômico real, não apenas simbólico. Lula já usou o momento politicamente, acusando publicamente a família Bolsonaro de ajudar a arquitetar as tarifas para ganho eleitoral, acusação que os Bolsonaro negam.
Por que essa engrenagem é diferente da usada contra Maduro
É uma crise real, com escalada mensurável e consequências econômicas concretas. Mas há uma diferença qualitativa importante em relação ao roteiro usado contra a Venezuela: a crise Brasil-EUA se desenrola inteiramente dentro da gramática diplomática e comercial tradicional — vistos, agrément, tarifas, retórica eleitoral — não na gramática de segurança nacional e narcotráfico que precedeu e justificou juridicamente a operação contra Maduro. Não há, até o momento, qualquer indiciamento, sanção por narcoterrorismo, ou enquadramento de segurança nacional contra autoridades brasileiras — os instrumentos em jogo são os mesmos que regem qualquer atrito diplomático sério entre países soberanos, por mais desgastante que seja.
O ponto real de atenção — sem exagero, mas sem ingenuidade
Isso não significa que não haja nada a observar. Flávio Bolsonaro viajou a Washington para pedir que os EUA classifiquem o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas — exatamente o primeiro passo retórico que precedeu a ação contra Maduro (crime organizado → narcoterrorismo → ameaça ao governo que o tolera). Isso não prova intenção alguma contra Lula, mas mostra que setores da oposição brasileira estão, sim, tentando importar esse enquadramento discursivo para a política interna — algo que ganha peso adicional justamente porque a relação bilateral já está mais deteriorada do que em qualquer momento recente. Não é o gatilho jurídico-militar em si, mas é o tipo de degradação de relação que, historicamente, cria o terreno sobre o qual narrativas mais extremas podem ser construídas depois.
A conclusão honesta
Não há elementos factuais que sustentem a tese de uma "captura" de Lula nos moldes de Maduro — nem indiciamento, nem enquadramento de segurança nacional, nem justificativa estrutural equivalente. O que existe é desinformação deliberada explorando um evento real e chocante para gerar medo político em ano eleitoral, somada a uma crise diplomática genuína — tarifas, vistos negados dos dois lados, embaixadora com visto revogado — que eleva a temperatura sem, até aqui, mudar a gramática do conflito. São coisas diferentes, e tratá-las com o mesmo peso ajudaria a espalhar exatamente o tipo de pânico infundado que já foi checado e desmentido — sem, no entanto, permitir ignorar que a relação bilateral vive seu momento mais tenso em anos.

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