sábado, 8 de agosto de 2026

A Debacle Republicana Pode Reabrir a Porta do Tarifaço Para o Brasil

 Por Bruno Vértice

A menos de três meses das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, os números são os piores do segundo mandato de Donald Trump: aprovação na casa dos 35-38%, desaprovação batendo 63%, e o Partido Democrata com vantagem de até 14 pontos na disputa genérica pelo Congresso — a maior margem registrada desde 2017. Para o Brasil, essa fraqueza política doméstica pode significar algo concreto: uma janela de negociação sobre o tarifaço que discutimos aqui recentemente.



Os números da eleição

Em 3 de novembro, os americanos renovam as 435 cadeiras da Câmara e 35 das 100 do Senado. Na Câmara, a margem republicana já é apertada — 218 a 214 —, e os democratas precisam de apenas quatro cadeiras líquidas para retomar o controle. Pesquisas recentes (Marist/NPR/PBS, Emerson College, YouGov/Economist) mostram vantagem democrata que varia de 5 a 14 pontos na disputa genérica — patamar historicamente associado a ondas eleitorais de dois dígitos, como a de 2018, quando os democratas ganharam 40 cadeiras.

O Senado é o dado mais raro desta eleição: pela primeira vez em anos, analistas tratam a Casa como genuinamente disputada. Os republicanos defendem maioria de 53 a 45, mas enfrentam mapa hostil, com senadores vulneráveis como Susan Collins (Maine) e Thom Tillis (Carolina do Norte) em estados que Trump perdeu ou venceu por margem apertada.

Por que a aprovação despencou

A queda de Trump está diretamente ligada à economia — pela primeira vez em quase uma década, o eleitorado americano considera o Partido Democrata mais capaz de administrar a economia do que o Republicano, segundo a Reuters/Ipsos. A alta de mais de 25% no preço da gasolina desde fevereiro, combinada com inflação pressionada pelas próprias tarifas comerciais do governo, corrói exatamente o terreno em que Trump historicamente mais tinha vantagem.

O elo direto com o tarifaço brasileiro

Aqui entra a conexão relevante para o Brasil: em fevereiro, a Suprema Corte americana decidiu, por 6 a 3, que a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) — base legal original do tarifaço amplo contra dezenas de países — não autoriza o presidente a impor tarifas gerais sem crise real caracterizada. O voto do presidente da Corte, John Roberts, foi direto: "os fundadores deram esse poder ao Congresso, sozinho." Trump reagiu no mesmo dia anunciando novas tarifas via outras bases legais — Seções 122, 232, 301 e 338 do arcabouço comercial americano —, mecanismos que sustentam hoje a estrutura de 25% mais 12,5% sobre exportações brasileiras que já analisamos aqui.

O que muda com um Congresso democrata

A decisão da Suprema Corte já reafirmou algo que a Constituição americana sempre previu: tarifas são, originalmente, prerrogativa do Congresso (Artigo I), delegada ao Executivo por leis específicas — não um poder presidencial autônomo. Um Congresso controlado pela oposição amplia significativamente a capacidade de fiscalização dessa delegação: comissões podem convocar autoridades do escritório do Representante Comercial (USTR), abrir investigações sobre o impacto inflacionário das tarifas, e pressionar publicamente por revisão — mesmo sem poder de veto direto sobre decisões executivas de política comercial, que seguem amplamente discricionárias mesmo em cenário de Congresso hostil.

A leitura estratégica para Brasília

Analistas como Christopher Garman e a consultoria Eurasia já apontaram, logo após a derrota de Trump na Suprema Corte, que a decisão "abre uma janela de oportunidade" para o Brasil negociar redução das tarifas antes que o governo reconstrua gradualmente sua base legal. Um Trump politicamente enfraquecido, de olho em não perder ainda mais terreno econômico com a inflação como principal vulnerabilidade eleitoral, tem incentivo redobrado para fechar acordos que sinalizem alívio de preços ao consumidor americano — o mesmo padrão, aliás, que já levou à isenção tarifária negociada para a aviação civil britânica.

O que observar

Dois relógios correm em paralelo: o das eleições de novembro, que vão redesenhar o equilíbrio de forças em Washington, e o da própria disputa jurídica sobre até onde vai a autoridade tarifária do Executivo — ainda longe de resolvida, já que a Suprema Corte não fixou doutrina geral sobre o que caracteriza uma "emergência nacional" legítima. Para o Brasil, o cenário mais provável não é o fim abrupto do tarifaço, mas sim um Trump mais aberto à mesa de negociação — pressionado tanto pelos tribunais quanto pelas urnas.

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