Por Bruno Vértice
O Declínio da Paixão Eleitoral: Do Clímax de 2022 ao Vazio Atual
Entre o fim de 2022 e meados de 2026, a temperatura da política brasileira sofreu uma mudança drástica. O contraste não é apenas estético; é estrutural e afetivo. O pleito presidencial de 2022 representou o pico da mobilização social no país, operando sob uma lógica quase existencial. Famílias divididas nas mesas de jantar, grupos de mensagens transformados em campos de batalha ideológicos e passeatas que paralisavam capitais refletiam uma população hiperengajada — ainda que impulsionada por uma polarização tóxica. Havia uma crença, alimentada por ambos os lados, de que o destino final da nação seria decidido naquele 30 de outubro.
Entretanto, o que se observa na atualidade é o fenômeno que sociólogos e cientistas políticos classificam como "burnout cívico". O calor da militância cedeu lugar a um silêncio pesado e desinteressado. As bandeiras nas janelas desapareceram, as conversas sobre política no trabalho tornaram-se incômodas e o engajamento orgânico nas redes sociais despencou. O eleitorado brasileiro não encontrou a pacificação prometida, mas sim a exaustão. A sociedade percebeu que a hiperpolitização cotidiana drenou energias coletivas sem entregar a prosperidade ou a estabilidade institucional desejadas. O engajamento combativo deu lugar a um pragmatismo desencantado, no qual a abstenção e a apatia despontam como a principal resposta de um eleitorado saturado.
O Rastro de Fantasmas: O Colapso Ético do Bolsonarismo
Para compreender a origem desse cinismo coletivo, é indispensável examinar o desgaste do campo conservador ao longo do último ciclo. O movimento que emergiu em 2018 sob a promessa de um rompimento com o "sistema" e de um combate intransigente à corrupção sofreu uma erosão gradual ao ter suas práticas expostas ao escrutínio público.
A derrocada da narrativa de pureza ética bolsonarista foi impulsionada por uma sequência de escândalos:
O Orçamento Secreto e a Cooptação: O alinhamento com a "velha política" do Centrão, simbolizado pela entrega de bilhões de reais em emendas parlamentares sem transparência, desmantelou o discurso de repúdio aos balcões de negócios de Brasília.
Os Casos de Corrupção e Propina: Das investigações sobre superfaturamento na compra de vacinas durante a pandemia aos esquemas de rachadinha nos gabinetes familiares, a retórica da honestidade sofreu abalos contínuos.
O Escândalo das Joias: As apurações sobre o desvio e a tentativa de venda de bens do acervo privado da Presidência no exterior expuseram práticas vulgares de apropriação de patrimônio público.
A consequência desse processo foi a perda da autoridade moral. A base radicalizada permaneceu fiel, mas a vasta camada de eleitores antipetistas moderados — que votaram na direita buscando moralidade e eficiência — viu-se diante da constatação de que o moralismo eleitoral era apenas uma maquiagem para velhas práticas oligárquicas.
O Novo Governo Lula e o Peso das Expectativas Frustradas
Se a direita deixou um rastro de escândalos, o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência não conseguiu reavivar o entusiasmo popular. A eleição de 2022 foi garantida por uma frente ampla sob a promessa de reconciliação nacional, reconstrução institucional e rápida melhoria na qualidade de vida. Contudo, a margem estreita da vitória já sinalizava um mandato sem margem para erros.
À frente do Palácio do Planalto, o governo enfrentou entraves estruturais e limitações políticas que minaram a expectativa inicial:
A Realidade Econômica do Cuidado diário: Embora os indicadores macroeconômicos tenham apresentado números positivos em certos setores, o impacto na mesa do trabalhador comum demorou a se concretizar. A inflação de alimentos acumulada nos últimos anos e o custo de vida elevado mantiveram o poder de compra corroído, transformando a promessa da "picanha e cerveja" em um meme amargo de campanha.
A Dependência Extrema do Centrão: Para garantir a governabilidade no Congresso, o governo reeditou os acordos fisiológicos do passado. A liberação recorde de emendas parlamentares e a entrega de ministérios estratégicos a partidos de centro-direita desidrataram a imagem de transformação radical.
A Persistência do Discurso do Passado: A dificuldade da gestão em apresentar uma agenda de futuro conectada com a economia digital e os anseios das novas gerações de trabalhadores informais passou a impressão de um governo preso às soluções dos anos 2000.
O eleitor que votou em Lula como um "voto de salvação democrática" ou por nostalgia de um tempo de bonança não encontrou o alívio imediato esperado. O resultado foi a transição da esperança para uma resignação passiva: o governo atende às exigências mínimas da normalidade institucional, mas carece da capacidade de encantar a população.
O Fracasso da Terceira Via e o Vazio de Alternativas
Diante da rejeição mútua aos polos tradicionais, o cenário ideal exigiria a emergência de uma alternativa moderada. No entanto, o projeto da chamada "Terceira Via" fracassou sucessivamente, aprofundando o sentimento de desamparo político da população.
| Fator de Incapacidade | Causa Principal | Impacto no Eleitorado |
| Pulverização de Nomes | Vaidade de lideranças e incapacidade dos partidos de centro em unificar uma única candidatura competitiva. | Sensação de amadorismo e falta de projeto de país unificado. |
| Discurso Tecnocratico | Foco excessivo em jargões de mercado e linguagem distante da realidade cotidiana do cidadão comum. | Falta de apelo popular e de conexão emocional com as massas. |
| Captura pelo Fisiologismo | Partidos do centro tradicional (como MDB, PSD e União Brasil) preferiram negociar cargos com quem estivesse no poder a construir uma oposição consistente. | Perda de credibilidade; o "centro" passou a ser visto apenas como aluguel político. |
Sem um projeto de centro estruturado, o eleitor desiludido não encontrou um porto seguro. A falência da Terceira Via produziu um vácuo: a população rejeita os extremos, mas não enxerga no centro uma solução viável. O resultado prático é a sensação de aprisionamento em uma escolha perpétua entre o "menos pior".
A Saturação Cívica: Uma Democracia Sem Entusiasmo
O quadro atual da política brasileira reflete o desmonte da fé pública. O brasileiro não deixou de votar porque aprendeu a desconfiar da política, mas porque cansou de ver promessas messiânicas terminarem em investigações policiais ou em composições fisiológicas de bastidor.
Essa saturação traz consequências profundas para a saúde da democracia:
O Crescimento do Voto Nulo e da Abstenção: O desinteresse tende a se converter no aumento do absenteísmo nas urnas. Quando o cidadão percebe que a mudança de governo não altera suas condições imediatas de vida, a participação eleitoral perde o sentido.
O Refúgio na Vida Privada: Desconectado da esfera pública, o indivíduo volta suas energias exclusivamente para a sobrevivência individual, alimentando um individualismo cínico ("nada vai mudar mesmo").
A Vulnerabilidade a Discursos Antipolítica: A apatia geral é o terreno fértil para o surgimento de outsiders oportunistas que prometem rasgar o tecido institucional em nome de uma eficiência ilusória.
O Brasil de 2026 não é um país em transe ideológico, mas um país exausto. A energia que antes movimentava multidões deu lugar a um pragmatismo desencantado. Resta saber se os atores políticos tradicionais entenderão o recado das ruas a tempo ou se continuarão a falar sozinhos em uma arena vazia, diante de uma plateia que já deu as costas para o espetáculo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário