sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Por Que a Economia Vai Bem e Ninguém Sente? O Paradoxo da Inflação de Alimentos

 Toda vez que um governo — qualquer governo — exibe indicadores macroeconômicos bons e a aprovação popular não acompanha, alguém aparece pra sugerir que a população "não entende de economia" ou "foi enganada pela oposição". A explicação de verdade é bem menos condescendente e bem mais interessante: existe um fenômeno econômico-comportamental real por trás dessa distância, e ele explica por que "os números estão bons" pode ser verdade e "ninguém sente" também pode ser verdade, ao mesmo tempo, sem contradição nenhuma.



O que os números realmente dizem sobre os dois governos

Antes de chegar no paradoxo, vale registrar o que os dados do IPCA (IBGE) mostram sobre alimentação nos dois últimos governos, já que é o item mais sensível ao bolso de quem ganha menos. No governo Bolsonaro (2019-2022), a inflação de alimentos rodou em média por volta de 8,24% ao ano, com dois picos fortes: 14,09% em 2020, no início da pandemia, quando itens como arroz e óleo de soja dispararam mais de 60% por demanda represada e exportação em alta; e 11,64% em 2022, puxado por geadas e seca que afetaram frutas e café. No governo Lula (2023 em diante), a média anual caiu para cerca de 4,36%, com 2023 registrando quase deflação em itens-chave — óleo de soja caindo 28%, frango caindo 10% — e 2024 voltando a subir por fatores como seca, a enchente no Rio Grande do Sul e o dólar batendo R$6, pressionando carne e café. Comparando períodos de mesma duração (43 meses), uma análise chegou a apontar 54,2% de alta acumulada em alimentos sob Bolsonaro contra 13,6% sob Lula. Os números variam um pouco conforme a metodologia exata, mas a direção é consistente entre fontes diferentes: a inflação de alimentos foi bem mais alta e mais volátil no governo anterior — e isso vale tanto pra quem simpatiza com um lado quanto com o outro, porque é o próprio IBGE medindo, não escolha editorial de ninguém.

Dito isso — e aqui é que a matéria fica mais interessante do que só comparar dois governos.

O paradoxo: bons indicadores, má sensação

Hoje o Brasil está com desemprego na mínima histórica da série do IBGE — 5,1% no trimestre encerrado em dezembro de 2025 — e o PIB cresceu 2,3% em 2025, depois de 3,4% em 2024. São dois indicadores macro que, em qualquer outro contexto, seriam lidos como sinal de governo economicamente bem-sucedido. Ainda assim, pesquisa Quaest de setembro de 2026 mostrou 50% de desaprovação do governo Lula contra 43% de aprovação. E o dado mais revelador de todos: no mesmo levantamento, 67% dos brasileiros disseram que os produtos ficaram mais caros no mês anterior — só que, nesse exato período, o IPCA de alimentos tinha na verdade caído 1,14%.

Não é ilusão da população, nem má-fé, nem "gente que não sabe interpretar número" — desculpa de novo se minha pergunta original soou nessa direção, porque a explicação correta vai exatamente no sentido oposto: a percepção das pessoas está captando algo real que o índice oficial, por desenho, capta de forma incompleta.

Por que a sensação diverge do índice — com causa, não com culpado

Existem pelo menos três mecanismos bem documentados por trás dessa divergência, e nenhum deles depende de quem está no poder.

O primeiro é o peso do orçamento: quanto mais pobre a família, maior a fatia da renda que vai para comida. O IPCA é uma média nacional que mistura o gasto de quem tem sobra de renda com o de quem gasta metade do salário no mercado — então mesmo uma inflação geral "controlada" pesa desproporcionalmente mais pra quem está na base da pirâmide. A FGV calculou que, desde 2020, o IPCA geral acumulou 43,3%, enquanto a alimentação no domicílio subiu 67,5% — quase 25 pontos percentuais de diferença, que o índice médio simplesmente dilui.

O segundo é a saliência, um viés cognitivo bem descrito na literatura de aversão à perda: aumentos de preço em itens que a pessoa compra toda semana — tomate, cenoura, cebola, que já registraram altas de 197%, 231% e 137% em determinados períodos — doem e ficam gravados na memória muito mais do que quedas equivalentes em itens comprados com menos frequência. Um aumento chama atenção; uma queda passa quase despercebida. O resultado é uma percepção sistematicamente mais pessimista do que a média fria do índice, em qualquer governo, em qualquer país.

O terceiro é a reduflação — embalagens encolhendo enquanto o preço nominal do produto fica igual, um aumento de preço disfarçado que o cálculo oficial capta de forma imperfeita, porque a metodologia historicamente compara preço por unidade de produto, não sempre por grama ou mililitro de forma consistente entre todas as marcas e tamanhos do mercado. Quem sente o pacote "acabando mais rápido" está percebendo uma inflação real que o índice, no melhor dos casos, só capta com atraso.

O que fica dessa comparação

A conclusão não é que os indicadores estejam errados, nem que a população esteja "enganada" — as duas coisas descrevem realidades diferentes e igualmente reais. O índice mede a média nacional de uma cesta ampla; a experiência das pessoas é sobre itens específicos, comprados com frequência, por quem tem menos margem no orçamento pra absorver qualquer oscilação. Isso ajuda a entender por que qualquer governo, inclusive um com desemprego em mínima histórica, dificilmente vai conseguir "convencer" a população de que a economia vai bem só citando PIB e taxa de desocupação — porque a métrica que mais importa pro dia a dia de quem vive de salário não é a que aparece no discurso oficial, é o preço do quilo de tomate na feira de sábado.

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