Por Bruno Vértice
Michelle Bolsonaro expôs publicamente uma fratura interna. Surgiu a suspeita de que Flávio pediu dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre o pai. A candidatura chegou à convenção sem vice e sem aliança partidária relevante. Por qualquer métrica tradicional de ciência política, isso deveria custar caro nas urnas. Não custou. E entender por quê revela mais sobre o eleitorado brasileiro do que sobre o próprio Flávio.
O caso que deveria ter doído mais
O epicentro da turbulência recente foi o chamado "caso Master" — o escândalo envolvendo o financiamento do filme "Dark Horse", sobre Jair Bolsonaro, e a revelação de que Flávio teria buscado recursos do banqueiro Daniel Vorcaro para viabilizar a produção. Por semanas, o episódio dominou o noticiário político, com expectativa real de desgaste eleitoral tanto para a oposição quanto para o governo. A pesquisa BTG/Nexus, divulgada logo depois, mostrou algo notável: os números voltaram praticamente ao patamar anterior à crise. Lula em 40%, Flávio em 34% — a mesma foto de antes do escândalo estourar.
Um eleitorado que já decidiu
Institutos como Datafolha, BTG/Nexus e Atlas/Bloomberg convergem num diagnóstico parecido: o eleitorado de Flávio está cristalizado, oscilando entre 34% e 40% independentemente do ruído político do momento. Isso não é resiliência no sentido de "recuperação após queda" — é estabilidade que nunca caiu de fato. A explicação mais consistente entre analistas é sociológica, não conjuntural: parte relevante do eleitorado bolsonarista vota por identidade e pertencimento tribal, não por avaliação de desempenho ou de escândalos específicos do candidato. Nesse tipo de voto, notícia negativa não funciona como informação a ser processada — funciona como ataque externo a ser rejeitado, o que paradoxalmente reforça a lealdade em vez de corroê-la.
A fratura Michelle-Flávio que não moveu ponteiro nenhum
O mesmo padrão se repete no episódio Michelle. A ex-primeira-dama publicou um vídeo relatando publicamente ter sido desrespeitada por Flávio na condução da candidatura — um rompimento real, com peso simbólico grande, já que Michelle carrega capital político próprio junto ao eleitorado evangélico e conservador. Analistas políticos apontavam ali um risco genuíno de fragmentação da direita. As pesquisas seguintes não mostraram nenhum reflexo eleitoral mensurável. A base não migrou, não hesitou, não puniu.
O isolamento que é de elite, não de eleitor
Esse é o contraste que conecta essa resiliência ao isolamento político que discutimos antes: Flávio está isolado entre partidos, dirigentes do Centrão e possíveis vices — mas não está isolado entre eleitores. São dois fenômenos diferentes, acontecendo em camadas diferentes do sistema político ao mesmo tempo. A elite partidária pondera estratégia, tempo de TV, viabilidade de governo. O eleitorado de base pondera pertencimento. Um mede o candidato pela capacidade de construir maioria; o outro mede pela lealdade tribal. Até agora, o segundo tem se mostrado mais estável do que o primeiro.
Um dado que complica a própria narrativa bolsonarista
Ainda assim, existe uma fissura real dentro dessa resiliência: pesquisa Genial/Quaest de janeiro mostrou que 43% dos entrevistados acreditam que um candidato de oposição fora da família Bolsonaro teria mais chances de derrotar Lula, contra apenas 34% que acreditam que alguém com o sobrenome venceria. Ou seja: mesmo entre quem quer ver Lula derrotado, existe desconfiança relevante sobre se o sobrenome Bolsonaro é o veículo certo para isso — uma tensão que a base eleitoral cristalizada de Flávio, sozinha, não resolve.
O que isso ensina sobre 2026
A lição não é que escândalo não importa em política brasileira — importa, e muito, para o eleitorado indeciso e para a viabilização de alianças, como já vimos no texto sobre o isolamento da candidatura. A lição é que existe um núcleo do eleitorado para o qual escândalo pessoal do candidato simplesmente não é a variável relevante. Compreender essa divisão — entre o jogo de elite que Flávio está perdendo e o jogo de base que está vencendo — é o que realmente explica por que a candidatura sobrevive, mesmo isolada, mesmo fraturada, mesmo sob escrutínio constante da Polícia Federal.

Nenhum comentário:
Postar um comentário