domingo, 26 de julho de 2026

O Paradoxo do Soft Power Brasileiro: Primeiro em Prestígio, Isolado na Vizinhança

 Por Bruno Vértice

O Brasil é, oficialmente, o país de maior soft power da América Latina. O ranking Global Soft Power Index 2026, da consultoria britânica Brand Finance, coloca o país à frente de todos os vizinhos em reputação internacional, cultura e capacidade de persuasão. Na prática política, porém, esse prestígio não tem se traduzido em influência sobre os dois países que mais deveriam sentir a gravidade brasileira: Argentina e Paraguai.

Um título que não abre portas

Soft power, no conceito clássico de Joseph Nye, é a capacidade de atrair sem coagir — convencer pelo exemplo, não pela força. O Brasil pontua bem nesse critério: música, futebol, culinária, uma diplomacia historicamente respeitada. O problema é que reputação cultural e alinhamento geopolítico são coisas diferentes, e a região vizinha escolheu, nos últimos anos, o segundo caminho.

A vizinhança foi para o outro lado

Javier Milei, na Argentina, e Santiago Peña, no Paraguai, fazem parte de uma onda conservadora que já toma conta de boa parte do continente — ao lado de José Antonio Kast no Chile, Daniel Noboa no Equador, Rodrigo Paz na Bolívia. O método se repete: aproximação explícita com Washington, discurso anti-Brasília e simpatia declarada pela agenda de Donald Trump.

O episódio que expõe a tese

Neste sábado, Milei discursou pessoalmente na convenção que oficializou a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, chamando o senador de único capaz de deter Lula e classificando o atual governo brasileiro como caminho para o "totalitarismo" e para uma futura crise de dívida. O presidente argentino ainda tratou o petismo e o Foro de São Paulo como parte de um mesmo bloco ideológico regional a ser combatido, e enviou uma saudação pública ao ex-presidente Jair Bolsonaro. O episódio gerou reação imediata do Itamaraty, que chamou o embaixador brasileiro em Buenos Aires para consultas — um gesto diplomático reservado a situações de desgaste sério entre governos.

Não é retórica de campanha isolada. É um chefe de Estado estrangeiro discursando, ao vivo, em solo brasileiro, para ajudar a eleger o principal adversário do presidente em exercício. Poucas imagens ilustram melhor o limite do soft power brasileiro do que essa: o Brasil pode ser admirado como marca cultural, mas o presidente da Argentina prefere claramente investir no projeto político oposto ao de Brasília — e faz questão de dizer isso publicamente, dentro do próprio território brasileiro.

O outro dado que ninguém repete

Há uma segunda estatística que complica ainda mais o discurso de liderança regional brasileira: no Índice Global de Paz (GPI) de 2026, o Brasil fica atrás de Uruguai, Chile, Paraguai, Argentina e Bolívia — justamente os países que deveria estar "liderando". O problema não é guerra ou conflito externo; é segurança pública, criminalidade e violência urbana interna.

A resposta de Brasília: fome, não força

O governo Lula tenta preencher essa lacuna com uma agenda alternativa — combate à fome, cooperação Sul-Sul, reforma da governança global, a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza lançada na presidência brasileira do G20. É uma aposta em influência por agenda humanitária e multilateral, não por alinhamento ideológico direto. Funciona como política externa de longo prazo. Não impediu um presidente vizinho de discursar em solo brasileiro pedindo a derrota do governo local.

A conclusão incômoda

Ser o primeiro em soft power regional não impediu Milei de vir pessoalmente ao Brasil fazer campanha contra Lula. Prestígio cultural e alinhamento político são moedas diferentes — e o episódio deste sábado mostra que a vizinhança não está apenas discordando de Brasília em silêncio: está discursando contra ela, no próprio quintal brasileiro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A Encruzilhada de Lula na ONU: Eleição, Economia, Soberania e Trump na Mesma Manhã

 Nesta terça-feira, 22 de setembro de 2026, Lula discursa às 9h (horário de Nova York, 10h em Brasília) na abertura da Assembleia Geral da O...