quarta-feira, 29 de julho de 2026

A Esquerda Rachada: Enquanto Lula Lidera as Pesquisas, o PT Perde Espaço na Própria Base

 Por Bruno Vértice

Lula segue liderando todos os cenários de primeiro turno nas pesquisas eleitorais de 2026. Mas por trás desse número favorável, o campo da esquerda brasileira enfrenta uma fragmentação que a vantagem presidencial esconde: o próprio PT está brigando por hegemonia com aliados históricos em pelo menos dois estados-chave, e o eleitorado de esquerda não-lulista já dá sinais de fadiga com o petismo.




A vantagem que não é tão sólida quanto parece

Levantamentos da Quaest mostram que, no público que se autodeclara "esquerda não lulista", o apoio a Lula caiu de 93% para 84% entre dezembro e março — nove pontos perdidos para Flávio Bolsonaro, que subiu de 3% para 7% nesse mesmo recorte. Não é migração para a direita bolsonarista clássica; é o sintoma de um eleitorado de esquerda que apoia Lula por utilidade tática contra o adversário, não por lealdade orgânica ao PT — diferente da lógica de trincheira que mantém o bolsonarismo coeso mesmo sob desgaste.

Minas Gerais: o PT decide brigar sozinho

O caso mais visível da disputa por hegemonia é mineiro. Depois que o senador Rodrigo Pacheco (PSB) recusou a candidatura ao governo e Alexandre Kalil (PDT) — ex-prefeito de Belo Horizonte e vice-campeão da disputa de 2022 — resistiu a qualquer aproximação com os petistas, o PT decidiu partir para candidatura própria. Neste último domingo (26/07), o PDT oficializou Kalil como candidato, encerrando de vez qualquer chance de acordo. O presidente do PDT, Carlos Lupi, chegou a admitir publicamente que tentou construir uma aliança entre as siglas e que a negociação simplesmente não avançou.

O acordo que só funcionou de um lado

O episódio mineiro fica ainda mais delicado à luz do que aconteceu no Rio Grande do Sul. Para viabilizar uma aliança nacional com o PDT, a direção do PT sacrificou a pré-candidatura de Edegar Pretto no Rio Grande do Sul, transferindo apoio à deputada estadual Juliana Brizola — do PDT, neta de Leonel Brizola — como cabeça de chapa ao governo gaúcho. A decisão gerou resistência interna real entre petistas mineiros e gaúchos, que consideraram um erro de cálculo do presidente nacional do PT, Edinho Silva: o partido cedeu espaço em um estado importante esperando reciprocidade do PDT em outros — Minas Gerais entre eles —, e a reciprocidade simplesmente não veio. Kalil manteve candidatura própria mesmo com o aceno prévio de apoio nacional que o PDT havia prometido a Lupi.

O padrão que se repete

O que Minas e Rio Grande do Sul revelam, somados, não é só uma disputa eleitoral estadual isolada — é evidência de que a coalizão de esquerda brasileira segue mais fragmentada do que a força eleitoral pessoal de Lula sugere. O PT tenta impor hegemonia onde pode (Minas), cede espaço onde precisa (Rio Grande do Sul), e mesmo assim não consegue garantir reciprocidade da aliança. Para uma legenda que segue como partido mais citado nas pesquisas de preferência partidária, a dificuldade em fechar acordos duradouros com aliados históricos do campo progressista é um sintoma de que a hegemonia da esquerda brasileira depende hoje mais da liderança pessoal de Lula do que de qualquer estrutura partidária coesa por trás dele.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A Encruzilhada de Lula na ONU: Eleição, Economia, Soberania e Trump na Mesma Manhã

 Nesta terça-feira, 22 de setembro de 2026, Lula discursa às 9h (horário de Nova York, 10h em Brasília) na abertura da Assembleia Geral da O...