Por Bruno Vértice
O que genuinamente me chamou atenção hoje não foi um escândalo, nem uma pesquisa eleitoral — foi uma imagem protocolar, quase burocrática: Lula, Edson Fachin, Davi Alcolumbre e Hugo Motta lado a lado na tribuna de honra do desfile de 7 de Setembro em Brasília. Parece pouco. Mas o contraste com o que aconteceu há exatamente um ano — e há exatamente uma semana — transforma essa cena num dos gestos políticos mais carregados de significado do calendário de 2026.
Por que a presença de Fachin não é trivial
Em 2025, nenhum ministro do STF compareceu ao desfile da Independência. Não foi ausência casual: a Corte estava, naquele momento, no meio do julgamento que condenaria Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão pela tentativa de golpe de Estado — e a ausência coletiva dos ministros foi lida, corretamente, como um distanciamento institucional deliberado diante de um evento tão politicamente carregado. Um ano depois, Fachin não só compareceu — ocupou lugar de destaque na primeira fila, ao lado do próprio presidente da República.
O timing que torna isso ainda mais interessante
A presença de Fachin acontece na mesma semana em que o ministro André Mendonça retirou o sigilo de conversas entre Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro — o mesmo episódio que já discutimos aqui sobre o vácuo de controle institucional do STF, agora escalado a ponto de gerar manifestações públicas contra Moraes, ocorridas em paralelo à própria programação oficial da Independência. Ou seja: o presidente da Corte mais fraturada internamente do momento decidiu, justamente agora, aparecer publicamente ao lado do Executivo, numa cena cuidadosamente coreografada de unidade institucional — dias depois de vazamentos que expõem exatamente o oposto disso.
Vale registrar, para não simplificar: Fachin já vinha, na semana anterior, participando de evento no Planalto ao lado de Lula, onde discursou abertamente sobre a crise do Supremo, e conversou com o próprio presidente e com o procurador-geral Paulo Gonet antes da cerimônia. Não é um encontro espontâneo — é esforço deliberado de gestão de imagem institucional, num momento em que a credibilidade da Corte, como já mostramos com os dados do Datafolha, está no menor patamar da série histórica.
O contraponto simultâneo que a cobertura não pode ignorar
Enquanto isso acontecia em Brasília, atos da oposição tomavam a Avenida Paulista, liderados pelo próprio Flávio Bolsonaro, em pleno calendário de campanha presidencial. É um contraste visual quase didático: de um lado, a cena de unidade entre os Três Poderes, apresentada sob o tema "Soberania — A força que une o Brasil"; do outro, literalmente na mesma manhã, o principal candidato de oposição mobilizando sua base num ato paralelo e concorrente. O Brasil comemorou a Independência em dois palcos simultâneos e ideologicamente opostos, cada um reivindicando para si o verdadeiro sentido de soberania nacional.
Um detalhe técnico que revela o quanto a eleição já molda tudo
Mesmo o desfile oficial não escapou às regras eleitorais: o protocolo deste ano foi mais enxuto que o normal para cumprir vedações do TSE sobre uso da máquina pública em ano eleitoral — item de brindes cortado, pronunciamento presidencial em cadeia nacional precisou de autorização prévia da Justiça Eleitoral. Até a comemoração mais tradicional e menos partidária do calendário cívico brasileiro precisou ser juridicamente calibrada para não configurar vantagem eleitoral — um lembrete de como, num ano de eleição presidencial polarizada, praticamente nenhum gesto público do Estado escapa ao escrutínio de neutralidade.
Por que essa cena, especificamente, prendeu minha atenção
Não é o fato em si — é o que ele revela sobre como instituições em crise tentam se apresentar publicamente. Fachin não resolveu o conflito com Mendonça, não restaurou a confiança que o Datafolha mediu em queda, não mudou o vácuo estrutural de controle que discutimos no texto anterior. Mas escolheu, no dia simbolicamente mais carregado do calendário nacional, estar visivelmente ao lado do Executivo, numa encenação deliberada de normalidade institucional. É political theater no sentido mais literal e menos pejorativo possível — e, justamente por isso, vale mais a pena observar o que a cena tenta comunicar do que aceitá-la como retrato fiel do que realmente está acontecendo por trás dela.

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