Por Bruno Vértice
No último domingo (6/09), a Alternativa para a Alemanha (AfD) conquistou 43,8% dos votos na eleição estadual da Saxônia-Anhalt — o melhor resultado da história do partido em qualquer pleito estadual, e o primeiro caso, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, de um partido classificado como extrema direita vencendo uma eleição regional alemã. A legenda ficou a apenas três cadeiras da maioria absoluta que lhe permitiria governar sozinha.
Um padrão que já não é isolado
O resultado da Saxônia-Anhalt não é um evento pontual — é a continuação de uma sequência que já vinha se desenhando ao longo de 2026. Em Baden-Württemberg, a AfD alcançou 18,8%, consolidando-se como terceira força enquanto o SPD (Partido Social-Democrata, do chanceler) despencava para 5,5% — pior resultado histórico do partido no estado. Pouco depois, na Renânia-Palatinado, a AfD repetiu o padrão: cerca de 20% dos votos, ampliando presença em região onde tradicionalmente tinha pouco apoio. O fio condutor é sempre o mesmo: crescimento da extrema direita, colapso da social-democracia, e dificuldade dos conservadores tradicionais (a CDU do chanceler Friedrich Merz) em conter o avanço.
Por que a Saxônia-Anhalt em especial
A região fazia parte da antiga Alemanha Oriental — detalhe que não é irrelevante. O leste alemão, historicamente, apresenta padrão eleitoral distinto do oeste, com maior insatisfação econômica pós-reunificação e maior receptividade a discursos anti-imigração e anti-establishment. Uma pesquisa da emissora pública ARD, feita no mesmo estado, mostrou 87% dos eleitores insatisfeitos com o governo federal — o que o economista Marcel Fratzscher, presidente do renomado instituto DIW Berlin, resumiu como "acima de tudo, um voto de desconfiança no governo federal", mais do que endosso ideológico pleno à pauta da AfD.
O que a AfD defende, sem meio-termo
A plataforma do partido, segundo o Wall Street Journal, pede o fechamento de fronteiras a requerentes de asilo, fim das sanções contra a Rússia, saída da União Europeia caso Berlim não "recupere soberania nacional" de Bruxelas, e alteração constitucional para permitir a revogação de cidadania alemã de pessoas nascidas de pais estrangeiros que cometam crimes graves. É pauta que combina nacionalismo econômico, restrição migratória radical e reaproximação geopolítica com Moscou — um pacote que ecoa, deliberadamente ou não, tensões históricas que a Alemanha do pós-guerra construiu décadas de política institucional específica para evitar reeditar.
O "muro corta-fogo" que ainda segura, mas racha
Apesar do avanço eleitoral, a AfD segue isolada pelo chamado Brandmauer — o cordão sanitário informal que os demais partidos alemães adotam para impedir qualquer aliança formal com a extrema direita. Na prática, isso obriga coalizões pouco naturais entre rivais históricos, como CDU e SPD, apenas para manter a AfD fora do poder mesmo quando ela lidera nas urnas. É um contraste institucional revelador: enquanto a extrema direita cresce em intenção de voto, os partidos tradicionais perdem força individualmente, mas seguem dependentes uns dos outros para sustentar governabilidade — um equilíbrio que fica mais frágil a cada nova eleição estadual em que a AfD amplia sua margem.
A dimensão histórica que a torna mais sensível que em outros países
O crescimento de partidos de extrema direita não é fenômeno exclusivamente alemão — a Reunião Nacional na França e o Irmãos da Itália de Giorgia Meloni (que já governa há mais de 1.400 dias, o governo mais duradouro da Itália desde a guerra) fazem parte da mesma onda europeia mais ampla. Mas, na Alemanha especificamente, qualquer avanço de movimento nacionalista radical carrega peso histórico particular, dado o precedente do nazismo e a arquitetura institucional pós-guerra desenhada especificamente para dificultar a repetição desse tipo de ascensão — o que explica por que o resultado da Saxônia-Anhalt gerou repercussão internacional imediata, incluindo reação (sem comentário explícito) do próprio Donald Trump, que compartilhou print do resultado em sua rede social.
O que observar daqui pra frente
A AfD já é, segundo pesquisas nacionais, o partido mais popular da Alemanha em nível federal — não apenas nesses estados específicos. A pergunta que resta em aberto é até quando o Brandmauer resiste como estratégia viável: cada nova eleição em que os partidos tradicionais precisam se aliar contra a vontade das urnas para barrar a extrema direita alimenta, paradoxalmente, o discurso da própria AfD de que o "establishment" ignora a vontade popular — um ciclo que, historicamente, tende a fortalecer ainda mais o movimento que a estratégia tenta conter.

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