Por Bruno Vértice
A bandeira da segurança pública transformou o governador Ronaldo Caiado (União Brasil) em uma das figuras de maior projeção no cenário político nacional. Sob a premissa de que "em Goiás marginal não se cria", a gestão ostenta dados oficiais expressivos divulgados pela Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP-GO). No entanto, ao analisar a fundo os indicadores oficiais mais recentes e a dinâmica social do estado, a pergunta persiste: a criminalidade foi solucionada ou o modelo goiano enfrenta limitações estruturais?
Os Dados da SSP-GO: A Queda do Crime Comum e Ostensivo
Os relatórios consolidados da Secretaria de Segurança Pública de Goiás apontam uma retração acentuada nos crimes violentos letais intencionais (CVLI) e nos crimes contra o patrimônio ao comparar o início da gestão (2018) com o ciclo recente:
Homicídios Dolosos: Redução de 62% entre 2018 e 2025 (caindo de mais de 2,1 mil casos para 808 registros). O estado figura atualmente entre as menores taxas de homicídio por 100 mil habitantes do país.
Crimes Patrimoniais Pesados: Queda de 98% nos roubos de carga, 95% nos roubos de veículos e 82% nos latrocínios.
Novo Cangaço: Redução de 100% nos ataques e assaltos a instituições financeiras com domínio de cidades.
Elucidação de Crimes: A Polícia Civil de Goiás relata uma taxa de elucidação de homicídios consumados de 92%, patamar significativamente superior à média nacional.
| Indicador Criminal (SSP-GO) | Comparativo (2018 vs. Recente) |
| Homicídios Dolosos | - 62% |
| Latrocínios | - 82% |
| Roubo de Veículos | - 95% |
| Roubo de Cargas | - 98% |
| Ataques a Bancos (Novo Cangaço) | - 100% |
Os Pilares do Sucesso Operacional
Três fatores explicam a melhoria nos índices de rua:
Investimento e Reparelhamento: Mais de R$ 30 bilhões foram direcionados à pasta desde 2019, resultando na renovação de frota de viaturas, aquisição de armamentos, incorporação de aeronaves e realização de concursos públicos.
Endurecimento no Sistema Prisional: O controle rígido das penitenciárias estaduais cortou a comunicação entre lideranças de facções presas e as ordens para o meio externo.
Integração das Polícias: A atuação coordenada entre as Polícias Militar, Civil e Rodoviária sufocou as rotas tradicionais do crime organizado no território estadual.
As Contradições e Desafios que Impedem a "Solução Definitiva"
Embora os números de crimes de rua sejam incontestáveis no balanço da SSP-GO, especialistas em segurança pública apontam que a questão está longe de ser considerada "resolvida" de forma definitiva:
Letalidade Policial e Transparência: Críticos e órgãos de controle frequentemente questionam os altos índices de mortes decorrentes de intervenção policial no estado, argumentando que a política de confrontos ostensivos impõe custos jurídicos e humanos elevados.
Complexidade do Tráfico de Drogas: Apesar da apreensão recorde de toneladas de entorpecentes, o trânsito de drogas por conta da posição geográfica de Goiás (corredor entre o Centro-Oeste e o Sudeste) mantém o crime organizado ativo em nível financeiro, mesmo sem o domínio territorial visível de favelas ou bairros.
Violência Doméstica: Enquanto roubos e homicídios de rua caíram, os crimes de violência contra a mulher e feminicídios continuam exigindo respostas mais complexas do que o patrulhamento ostensivo tradicional.
Ronaldo Caiado conseguiu, respaldado pelos dados da SSP-GO, estancar a escalada da violência urbana e devolver a sensação de ordem às ruas e ao comércio. No entanto, classificar a segurança pública como um problema "resolvido" ignora a necessidade de reformas estruturais de longo prazo em prevenção, inteligência financeira e políticas sociais.
O grande paradoxo do modelo goiano, contudo, reside na segurança dentro dos lares: enquanto a criminalidade ostensiva de rua despencou, os casos de violência contra a mulher e feminicídios registraram alta em Goiás. Os dados mais recentes indicam que as mortes de mulheres por razões de gênero continuam crescendo no estado — contrariando a tese de solução definitiva e evidenciando os limites do patrulhamento tradicional. Como a maior parte dessas agressões ocorre no ambiente doméstico, a presença de viaturas e a repressão de rua mostram-se insuficientes; sem uma rede de proteção contínua, agilidade nas medidas protetivas e políticas de prevenção social, a redução dos crimes patrimoniais nas avenidas convive lado a lado com a escalada da violência de gênero portas adentro.
O "Modelo Goiás" entregou resultados práticos imediatos, mas o desafio de sustentar esses patamares em um ambiente de criminalidade nacional interconectada permanece aberto.

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