terça-feira, 4 de agosto de 2026

As Quatro Razões Por Trás da Rejeição do Centrão a Flávio Bolsonaro

 Por Bruno Vértice

O Centrão não fechou a porta para Flávio Bolsonaro de uma vez — foi um processo de meses, com recuos e avanços, até se consolidar num afastamento que hoje parece definitivo. Uma reportagem recente do colunista João Paulo Biage identificou quatro fatores concretos por trás dessa rejeição. Vale destrinchar cada um.



1. Articulação fraca — Flávio e Valdemar não tinham o que oferecer

No início do ano, PP e União Brasil chegaram a se inclinar favoravelmente a um apoio, ainda que tímido, à candidatura de Flávio — nomes como Ciro Nogueira, Arthur Lira, Antônio Rueda e Elmar Nascimento estavam abertos à conversa. A articulação de Flávio e do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, simplesmente não conseguiu converter essa disposição inicial em compromisso concreto. Faltou capacidade de oferecer o que esses partidos buscavam — espaço, cargos, garantias de reciprocidade nas disputas estaduais — no momento em que a janela de negociação estava aberta.

2. Os escândalos que já discutimos aqui

O caso envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master — que já cobrimos nesse espaço — pesou diretamente na avaliação do Centrão sobre o risco de associar a marca partidária a Flávio. Mas esse não é o único item do currículo problemático: o senador carrega desde os tempos de deputado estadual na Alerj o caso das "rachadinhas", além de suspeitas mais antigas envolvendo uma loja de chocolates usada para lavagem de dinheiro e a compra em dinheiro vivo de uma mansão de R$ 6 milhões em Brasília. Nenhum desses casos é novo — mas, somados ao escândalo mais recente, formam um acúmulo que os partidos do bloco preferem não comprar.

3. Alianças estaduais que não querem ficar reféns do nacional

União Brasil e PP calcularam que amarrar suas siglas à candidatura presidencial de Flávio poderia prejudicar acordos regionais mais importantes para a sobrevivência eleitoral de seus quadros locais. Preferiram manter neutralidade nacional para preservar flexibilidade nos estados — uma lógica que já vimos se repetir no caso mineiro, com o PDT de Kalil recusando aliança com o PT por cálculo semelhante.

4. A articulação direta do PT

O quarto fator é o menos óbvio: interlocutores apontam movimentação ativa de nomes do governo Lula, incluindo o ministro José Guimarães, para dificultar a consolidação de apoio do Centrão a Flávio. Não é só ausência de entusiasmo espontâneo do bloco — é também trabalho institucional do Planalto para manter esse distanciamento.

O pano de fundo: rejeição regional e a sombra de Tarcísio

Soma-se a tudo isso um dado eleitoral que preocupa diretamente o cálculo do Centrão: avaliação interna do bloco é que a rejeição ao sobrenome Bolsonaro — especialmente no Norte e Nordeste — torna Flávio mais vulnerável a Lula do que seria Tarcísio de Freitas. O governador de São Paulo segue como preferido declarado de nomes como Gilberto Kassab (PSD), contando também com a simpatia do mercado financeiro e do agronegócio — exatamente o tipo de apoio institucional que Flávio não conseguiu reunir.

Até resistência "dentro de casa"

Talvez o dado mais revelador seja este: pesquisas mostram que a própria Michelle Bolsonaro é mais competitiva que Flávio entre o público evangélico e entre mulheres — a resistência à candidatura não vem só de fora do bolsonarismo, começa dentro do núcleo familiar e ideológico que deveria ser sua base mais segura.

O que isso significa

Quatro fatores concretos, um pano de fundo de rejeição regional, e resistência até dentro de casa — juntos, explicam por que o isolamento de Flávio, que discutimos aqui há pouco, não é acidente de percurso nem exagero de imprensa. É resultado de cálculo político frio, repetido de forma consistente por atores com interesses e informações muito diferentes entre si, todos chegando à mesma conclusão.

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