Por Bruno Vértice
Aos 80 anos, Luiz Inácio Lula da Silva já é o presidente eleito mais longevo da história do Brasil — e, se vencer a eleição de outubro, poderá governar até os 85. Essa simples constatação demográfica, por si só, resume boa parte do desafio que separa o petista de um quarto mandato: ele não disputa apenas contra um adversário, mas contra o tempo, contra um Congresso cada vez mais autônomo e contra uma direita ainda em busca de um nome capaz de superá-lo nas urnas.
A idade como variável eleitoral
Levantamentos recentes mostram que metade do eleitorado considera a idade de Lula um problema real para a reeleição — um receio que ecoa o que ficou conhecido, no debate público brasileiro, como "efeito Joe Biden": o temor de que um chefe de Estado octogenário não sustente fisicamente um mandato de quatro anos. O próprio presidente parece ciente do risco simbólico: tem intensificado aparições em que corre, se exercita e reforça publicamente sua disposição física, numa tentativa de neutralizar essa narrativa antes que ela se converta em voto.
Um partido sem plano B
Mais delicado que a idade em si é o vácuo de sucessão dentro do próprio PT. O recente Congresso Nacional do partido evidenciou que a legenda segue sem um nome consolidado para o pós-Lula — nem para 2030, quanto mais para uma eventual saída antecipada. Nomes como Fernando Haddad e Gleisi Hoffmann aparecem mencionados informalmente, mas nenhum recebeu investimento político claro. Um partido que depende tão fortemente de uma única liderança carrega um risco estrutural: qualquer intercorrência de saúde ou desgaste abrupto de popularidade encontra o PT sem alternativa preparada.
A base aliada rachada
No Congresso, o desgaste tem sido concreto, não apenas hipotético. A derrota na indicação de Jorge Messias ao STF e a derrubada de vetos presidenciais — inclusive o da dosimetria e o da MP que tratava do IOF — mostram um Planalto perdendo musculatura de articulação. Para viabilizar um quarto mandato, o governo precisou promover uma reformulação de bastidores, cortando aliados do Centrão que votavam contra prioridades do Executivo. É uma aposta de curto prazo: recompõe a base para a campanha, mas fragiliza ainda mais a governabilidade cotidiana enquanto isso.
Uma oposição fragmentada — mas não inofensiva
Do outro lado do tabuleiro, a ausência de Jair Bolsonaro — preso e inelegível após condenação por tentativa de golpe — deveria, em teoria, facilitar a vida de Lula. Mas o vácuo bolsonarista abriu uma disputa interna que ainda não se resolveu: o senador Flávio Bolsonaro consolidou-se como o nome mais forte da família, enquanto o governador Tarcísio de Freitas segue hesitante entre concorrer à Presidência ou preservar seu capital político em São Paulo mirando 2030. Pesquisas recentes mostram Lula à frente na maioria dos cenários de primeiro turno, mas com margens que oscilam entre folgadas e tecnicamente empatadas quando o adversário é Flávio Bolsonaro — o que indica uma disputa longe de estar decidida.
A economia como fiel da balança
Os indicadores macroeconômicos oferecem um quadro ambíguo para o governo. A inflação ronda os 5% ao ano — bem abaixo dos patamares de dois dígitos de 2022, mas ainda acima da meta do Banco Central —, enquanto o desemprego caiu ao menor nível em uma década. São números que o Planalto tentará transformar em capital eleitoral, mas a percepção de carga tributária elevada e o atrito comercial com os Estados Unidos, por conta do tarifaço imposto por Donald Trump, seguem como pontos de vulnerabilidade que a oposição deve explorar.
O que está realmente em jogo
Nenhum desses obstáculos, isoladamente, parece capaz de impedir uma candidatura Lula 4. Mas a soma deles — idade avançada, ausência de sucessor, base parlamentar em erosão e uma oposição que só precisa encontrar consenso em torno de um nome — desenha um cenário mais instável do que a liderança nas pesquisas sugere à primeira vista. Se 2026 confirmar a tendência histórica de que eleições brasileiras são decididas pelo desempenho econômico e pela capacidade de mobilizar a máquina de governo, o quarto mandato ainda é o caminho mais provável. Mas será, sem dúvida, o mais disputado dos quatro.

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