Uma leitura atenta das pesquisas de opinião pública divulgadas no país revela um cenário que, à primeira vista, parece contraditório. De um lado, o levantamento do Datafolha aponta que a maior parte da população brasileira passou a se identificar ideologicamente com o espectro da direita.
Registro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 📸 Foto: Ricardo Stuckert / PR
Como explicar esse fenômeno? Como um país onde o campo conservador ganha espaço pode, ao mesmo tempo, preferir um candidato de esquerda para governar o Executivo? Cientistas políticos e analistas apontam que a resposta está nas particularidades do comportamento do eleitor brasileiro e nos números detalhados dos institutos.
Para entender o tamanho desse nó político, vale a pena olhar diretamente para as estatísticas mais recentes do Datafolha:
A guinada à direita: Pela primeira vez desde 2014, a direita superou numericamente a esquerda em identificação ideológica por valores (sociais, políticos e econômicos) no Brasil.
O levantamento aponta que 44% dos eleitores se enquadram na direita ou centro-direita, contra 39% na esquerda ou centro-esquerda (outros 17% se declaram de centro). Em 2022, o cenário era inverso: a esquerda somava 49% e a direita, 34%. A liderança de Lula: Apesar desse avanço da direita na sociedade,
a pesquisa de intenção de voto para o primeiro turno presidencial mostra Lula na liderança isolada com 41%, seguido pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) com 31%. No cenário de segundo turno, Lula também aparece à frente com 47% contra 43% do parlamentar fluminense.
A coexistência desses dois dados reais mostra que as caixas ideológicas tradicionais funcionam de maneira diferente na mente do eleitorado.
O primeiro fator para entender o paradoxo é a separação que o eleitor faz entre pautas morais e pautas econômicas. O próprio cruzamento do Datafolha mostra que a direita avançou significativamente em temas de comportamento e costumes (com a visão de direita saltando de 39% para 52% nesse quesito específico em relação a 2022).
No entanto, quando o assunto é o papel do Estado na economia, a esquerda costuma reter forte apelo popular.
A figura de Luiz Inácio Lula da Silva carrega um recall político — ou seja, uma lembrança de marca — muito poderoso. Para milhões de eleitores, especialmente das classes mais baixas, o voto no atual presidente está ancorado em uma memória afetiva ligada aos seus dois primeiros mandatos (2003–2010), período marcado por forte crescimento econômico, inclusão social e ascensão de consumo.
Mais do que avaliar debates teóricos entre capitalismo e socialismo, o cidadão comum costuma votar comparando a sua qualidade de vida atual com a de períodos passados.
Historicamente, a cultura política na América Latina e no Brasil é fortemente personalista. Isso significa que o eleitor se conecta com biografias, lideranças e o carisma de indivíduos, e não necessariamente com estatutos partidários ou cartilhas ideológicas.
Um cidadão pode se classificar como "de direita" devido ao avanço desse pensamento em seu círculo social ou religioso,
Em ambientes politicamente polarizados, as eleições muitas vezes deixam de ser uma escolha "a favor" de uma proposta e passam a ser um movimento "contra" um adversário. O Datafolha mostra que a rejeição a ambos os líderes é parecida e muito alta: 48% dos entrevistados afirmam que não votariam de jeito nenhum em Flávio Bolsonaro, e 46% dizem o mesmo sobre Lula
Nesse equilíbrio de rejeições, o candidato que consegue atrair a fatia do eleitorado moderado ou de centro — que rejeita discursos considerados mais extremos de um dos lados — assume a dianteira, independentemente da onda ideológica dominante na sociedade.
Sendo assim, o cenário capturado pelas pesquisas recentes mostra que as definições rígidas de "esquerda" e "direita" usadas no debate acadêmico e jornalístico não se aplicam perfeitamente à mente do trabalhador comum. O Brasil pode estar caminhando para um perfil de valores mais associados à direita,
Nota de Transparência: Este artigo foi desenvolvido pelo autor com o suporte editorial de Inteligência Artificial (Gemini, do Google) para a análise de dados sociopolíticos, cruzamento de dados de institutos de pesquisa e estruturação de texto jornalístico.

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