sábado, 29 de agosto de 2026

A Pobreza do Debate Sobre a Dívida Pública na Corrida Presidencial de 2026

 Por Bruno Vértice

Todos os principais candidatos à Presidência falam em "ajuste fiscal". Nenhum deles, até agora, explicou com precisão qual é o verdadeiro motor do crescimento da dívida pública brasileira — e essa omissão, mais do que qualquer detalhe técnico de plano de governo, é o problema central que este texto quer examinar.


O dado que devia estar no centro do debate

No primeiro semestre de 2026, os juros da dívida pública adicionaram sozinhos 4,9 pontos percentuais do PIB ao estoque total da dívida — enquanto o crescimento nominal da economia, que normalmente ajuda a diluir esse peso, retirou apenas 2,7 pontos na direção oposta. Em outras palavras: o próprio governo já reconhece, em números oficiais, que os juros são hoje o principal fator de crescimento da dívida brasileira, superando de longe qualquer outro componente do déficit. Isso é um fato técnico, não uma opinião política.

Diante desse diagnóstico, a pergunta óbvia seria: por que o discurso de "ajuste fiscal" de praticamente todos os candidatos mira primeiro despesas primárias — saúde, educação, funcionalismo — em vez de atacar diretamente o componente que mais pesa na trajetória da dívida? A resposta prática é desconfortável: reduzir a conta de juros exigiria enfrentar a política monetária, a credibilidade fiscal de longo prazo e a estrutura da própria dívida — um problema muito mais difícil de resolver com um discurso de campanha do que simplesmente prometer "cortar gastos".

O que cada candidato está de fato propondo

Vale o inventário, para não tratar isso em abstrato:

Lula mantém como eixo a continuidade do arcabouço fiscal de 2023 (metas de resultado primário com bandas de tolerância) combinada à aposta nos ganhos da Reforma Tributária e no estímulo ao consumo como motor de crescimento. Não há, nesse plano, nenhuma medida nova e específica voltada à trajetória da dívida em si — é, essencialmente, uma aposta em que crescimento e arrecadação resolvam o problema por si sós, sem enfrentamento direto do estoque de juros.

Flávio Bolsonaro, através da coordenadora econômica Daniella Marques, propõe reforma do Estado nos primeiros 100 dias, uma PEC de ajuste fiscal, redução de impostos e burocracia. O "Livro Amarelo" da campanha — o documento mais volumoso da corrida — detalha corte de R$ 3,3 trilhões em gastos ao longo de dez anos e chega a propor a extinção da Justiça do Trabalho e substituição da CLT. É a proposta mais ambiciosa em volume numérico, mas ainda concentrada inteiramente do lado da despesa primária, não da conta de juros.

Ronaldo Caiado classifica o crescimento da dívida como "colapso completo" e defende responsabilidade fiscal e "emancipação social" no lugar do que chama de "assistencialismo populista" — discurso forte, mas com poucos detalhes técnicos sobre qual mecanismo especificamente atacaria o componente de juros da equação.

Renan Santos (Missão) foca em reestruturação federativa — fusão de municípios inviáveis, indicadores de desempenho para gestores locais — e defende ajuste fiscal drástico como pré-condição, dizendo não temer medidas impopulares por não pretender reeleição. É a proposta mais disposta a reconhecer custo político do ajuste, mas ainda mirando o lado da despesa.

Candidaturas anticapitalistas (Edmilson Costa, Hertz Dias, Rui Costa Pimenta, Samara Martins) invertem completamente o diagnóstico: defendem não-pagamento ou auditoria da dívida pública e estatização do sistema financeiro — ou seja, tratam o problema como ilegítimo por definição, em vez de tecnicamente equacionável.

O padrão que atravessa quase todo o espectro

Independente da ideologia, o padrão se repete: o vocabulário de "ajuste fiscal" é onipresente, mas o diagnóstico técnico sobre qual é a real causa do crescimento da dívida — juros, não gasto primário — raramente aparece de forma explícita nos discursos de campanha. Isso não é peculiaridade de um candidato específico; é um vício de todo o debate público sobre o tema, incluindo a cobertura jornalística que raramente cobra dos candidatos essa precisão.

Por que essa omissão importa de verdade

Um plano de governo que promete "cortar gastos" sem explicar qual fração do problema isso realmente resolve está vendendo alívio parcial como solução completa. Se os juros respondem por quase o dobro do impacto que o crescimento econômico consegue compensar, qualquer plano fiscal sério precisaria, no mínimo, explicar como pretende atuar sobre esse componente — seja via credibilidade que reduza o prêmio de risco embutido na taxa de juros, seja via reformas estruturais que mudem a percepção de solvência do país no longo prazo. Nenhuma das plataformas detalhadas acima faz esse exercício de forma explícita e mensurável.

A conclusão que fica

O eleitor brasileiro está sendo convidado a escolher entre diferentes intensidades de corte de gastos — muito ou pouco, rápido ou gradual, com ou sem reforma trabalhista junto — sem que nenhuma campanha relevante tenha, até agora, apresentado uma teoria completa e numericamente honesta de como pretende, de fato, estabilizar a trajetória da dívida diante do fato de que os juros, não o gasto primário, são hoje o principal motor do problema. Enquanto isso não mudar, o debate sobre "responsabilidade fiscal" continuará sendo, em grande medida, debate sobre onde cortar — não sobre o que realmente está fazendo a conta explodir.

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